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É lágrima quente que cura.

    
Ilustração :Damarys Lopes
     Quando tinha uns sete anos estava na casa de uma tia (era a namorada do meu pai)  e cedinho quando acordei a irmã dela estava na mesa da cozinha sentada com um xícara de café e um cigarro na mão,  rosto inchado, algumas lágrimas escorriam ainda pelo rosto,  toda  descabelada.  A vó lavava a louça e a tia cuidava de roupas no quintal. Ela estava tão triste,  mas a rotina corria normal,  fui até ela dei um abraço  um beijo e perguntei por que estava triste,  a resposta foi uma explosão de novas lágrimas abundantes e quentes que molharam meu rosto naquele abraço,  minha tia veio e falou “deixa ela quietinha, ela terminou com o namorado “. Fui então fazer minhas coisas de criança.  Passou o dia todo assim,  triste, mal comeu,  fumou muito,  tomou café ouviu música. Fui embora, devo ter voltado uns quinze dias depois e ela estava lá, linda,  alegre,  risonha. Brincava com as crianças como antes, não tinha nada da moça triste sentada na mesa da cozinha. De noite ela se arrumou e saiu. Não sei se foi com o namorado ou se com amigas, só lembro que ela estava realmente linda. Era 1986.
     Fui uma adolescente na década de 90 e uma coisa realmente espantosa é que vivíamos sem internet,  sem celular, sem google e sem YouTube ,  e pasmem era muito bom,  copia e cola era caderno de versos copiado e desenhado tudo a mão com letra cursiva caprichada,  postagem era escrever no caderno de enquete da amiga,   imagem bonita era papel de carta,  a fita K7 já ficava no gravador “rec. e pause” apertados e ouvido ligado “no esqueci de te esquecer” as melhores lentas passavam nessa hora! Não tinha mensagem,  nem horas ao telefone que ficava na sala onde todo mundo ouvia sua conversa. As coisas aconteciam no cara a cara mesmo,  a fofoca se resumia a meia dúzia de pessoas,  indireta já dava “treta” e desabafo e choro era sempre  com um ombro amigo e um abraço afetuoso. Ficar na “bad” era ficar na fossa,  música alta,  choro no quarto,  dar aquela  sumida, conversar,  ir na locadora,  comer pipoca. 
     Dois mil chegou e o mundo antigo acabou a adolescência também, agora era vida adulta em um mundo novo,  o relacionamento de adulto também,  carregado de sonhos e planos que nem sempre davam assim tão certo,  a fossa era a mesma,  e me vi algumas vezes como a tia, chorando lágrimas quentes,  aquelas que escorrem fartas aquecidas por tanta emoção que ferve no peito da gente,  mas duravam um fim de semana, e com a família ali do lado, silenciosamente dizendo: - Estamos aqui,  vai passar! Na segunda era vida que segue,  trabalhar, estudar “correr atrás “ da pessoa? Não,  da vida mesmo, não dava pra parar tanto tempo,  ninguém de fora queria saber da fossa. Aos poucos o nó na garganta ia se dissolvendo,  as coisas se organizando,  as lágrimas esfriando até que não tinha mais força.
     Nova década, agora tudo que acontece no real esta na rede, SMS, self, curtidas, check in, acesso a tudo,  amigos, família, conhecidos,  amigos de amigos,  páginas infinitas todos nas redes sociais.   Muita informação,  conselhos e ordens,  e mais coachs infinitos ensinando como é que se vive,  tem vídeo pra tudo,  técnicas e mais técnicas.  De homens e mulheres passamos a ser todos estrategista, a frase certa na hora certa copiada e colada em segundos,  se ele fizer isso faça isso,  se ela fizer aquilo faça  assim,  controle o tempo,  retoque a imagem, mostre o seu melhor. DE UM SHOW ! Tem milhares de espectadores te seguindo, não vá perder seguidores hein! Se você  não é finja, o show não pode parar! 
    Quando todo esse espetáculo sai da rede e chega aqui na vida real,  não tem coach,  não tem google, não tem conselho rápido,  tem você e o outro e agora não mais sonhos mas expectativas, nossa como tem expectativas! Expectativas que são difíceis de serem concretizadas pois a rede de apoio sumiu! Agora é cheiro, gosto, gestos e emoção. Cadê o manual? Não decorei tudo! Faço o que? É,  não deu de novo! Volta pra rede, estuda,  segue o manual,  treina,  treina, treina. EBA! Agora vai! Por um tempo,  afinal ainda são só duas pessoas e suas emoções... 
    Mas dessa vez doeu, chegou a “ bad”,  é domingo e você descobre que a cozinha agora se chama time line, e dentro dela tem milhares de juízes e conselheiros, e quando aquela lágrima se aquece nos seus olhos é imediatamente paralisada! O show não pode parar! Faça isso,  faça aquilo,  não demonstre,  não sinta,  você não pode,  vai se humilhar?  Amigaaaaa! Tem muito mais boba, parte pra outra! Ah se fosse comigo! Clarice Lispector,  Marta Medeiros,  Gasparetto! E o show não para,  a dor não passa,  stalker é assim que fala né! Não da pra não ver,  não da pra esquecer,  tem marcação pra todo lado! Ta online,  ta offline,  ta viajando, ta na balada! History, posta,  indiretas,  diretas!
     Ah se desse pra voltar pra cozinha com um café,  um cigarro,  o silêncio acolhedor das mulheres, um abraço afetuoso de criança e só poder deixar aquelas lágrimas que queimam os olhos sair e curar... 
Rêfesan

Texto: Renata Cristina Fesan
Ilustração :Damarys Lopes
https://www.facebook.com/pg/Universofesanico/community/


Comentários

  1. Como dizia meu sogro "isto é vida", um enorme beijo e um abraço bem forte, via escrita, que Deus nos reserve um momento para ser ao vivo.

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  2. Excelente texto, nos carrega ao passado e brinca com o presente, fala a alma e retoma lembranças naturais do ser mulher.

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    1. Obrigada, é muito bom ouvir de vc que tem toda essa sensibilidade feminina tão evidente. Bjo

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